O que é uma Liga Acadêmica?
As ligas não são apenas grupos de estudo, são entidades sem fins lucrativos com duração ilimitada. Criadas e organizadas por acadêmicos, professores e profissionais que apresentam interesses em comum: ensino, pesquisa e extensão. Constituem-se por atividades extraclasse e devem ter ações voltadas para o ensino e para educação médica.
Todas a Ligas são organizadas de forma estrutural, constituídas de uma diretoria administrativa e por membros efetivos. A primeira será responsável pela organização e administração das atividades. A segunda é o motivo da existência das Ligas. O número de participantes pode ser variável; a liga pode também ter caráter multidisciplinar, recomendando-se, porém, que sempre haja um profissional especializado pela respectiva área (Enfermagem, Fisioterapia, etc) responsável pelos alunos.
Todos os integrantes das Ligas são submetidos a normas ditadas pelo estatuto. Este deve conter os objetivos, as finalidades, o código disciplinar, as obrigações dos diretores e membros etc.
O grupo de alunos deve ser supervisionado e coordenado por professores e profissionais do departamento referente à área em questão, que irão otimizar a realização das atividades e a elaboração das linhas de pesquisas científicas
A promoção de saúde é um de nossos principais objetivos. A liga deve pensar em maneiras de atuar nos vários níveis de prevenção e cura. Não devemos nos manter em redomas pensando estar alcançando nosso objetivo, devemos ter em mente nosso potencial de agentes de transformação social e nosso dever de exercício da cidadania.
Em todo o processo de criação e no desenvolvimento das atividades de uma liga
acadêmica, os estudantes devem estar cientes de que este não é o caminho mais curto para a especialização e sim uma oportunidade de aprender a buscar o conhecimento, desenvolver raciocínio clínico, científico e estimular sua interação com a comunidade.
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10 Passos Para se Formar uma Liga Acadêmica
1. Buscar orientação e auxílio do Centro ou Diretório Acadêmico.
2. Escolher um tema relevante, abrangente e geral.
3. Procurar professores e profissionais da área interessados, para planejar o trabalho a ser desenvolvido e escolher a metodologia adequada.
4. Procurar apoios de entidades e instituições para a execução do projeto.
5. Elaborar o estatuto da Liga permitindo que haja discussões e, se necessário, modificações posteriores com a participação dos futuros integrantes da Liga.
6. Promover curso de capacitação.
7. Elaborar e aplicar os métodos de seleção dos integrantes da Liga.
8. Fazer o cronograma de atividades da Liga.
9. Garantir espaço para a apresentação dos trabalhos.
10. Fazer valer o que prega o estatuto da Liga.
Fonte: Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina
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Guia Para Construção De Ligas Acadêmicas
Muito temos discutido a respeito de Ligas Acadêmicas (LA) neste tempo em que repensamos o ensino médico. A discussão a respeito das ligas vai além de problemas pontuais nas escolas, como se pode perceber nos últimos anos, através do grande surgimento daquelas em todo país e, principalmente, na região sudeste. Diversas oficinas abordando este tema são realizadas em nossos encontros da DENEM e sempre existe procura por materiais sobre o assunto. Desta demanda, surge à idéia deste guia.
O presente material não deve ser entendido como um manual de construção que possua verdades absolutas e inflexíveis. A realidade das ligas acadêmicas não permitiria que escrevêssemos um material com este intuito, pelo contrário, nosso objetivo quando escolhemos os tópicos para iniciar sua redação era o de indicar rumos para a criação de novas ligas acadêmicas. As diferentes realidades locais serão necessariamente os fatores que servirão de molde para a estrutura da entidade em construção.
Esperamos cumprir nosso objetivo esclarecendo possíveis dúvidas e desta forma, dando o ponta-pé inicial para a criação de novas ligas.
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2 - O QUE É LIGA?
Não há exatamente um conceito sobre as Ligas Acadêmicas, mas linhas que estas devem adotar. Uma de suas características fundamentais é de ser uma entidade primordialmente estudantil e de ter à frente um grupo de estudantes que decide se aprofundar em determinado tema e sanar demandas da população. Os estudantes definem seus rumos, ficando a cargo do professor a orientação das atividades desenvolvidas.
As ligas não são apenas grupos de estudo. Considero propícia e correta a comparação desta à própria universidade no que se refere ao tripé de sua concepção: ensino, pesquisa e extensão, incluindo assistência sob supervisão presencial. Estas entidades devem necessariamente desenvolver, de maneira equilibrada, atividades nas três áreas citadas. Algumas pessoas denominam este tripé de aprender, atender e produzir, porém a palavra atender remete-nos a uma idéia assistencialista de extensão e, então, preferimos o uso do termo extensão e sua prática mais ampla pela LA, conforme discutiremos no oitavo tópico deste texto.
A promoção de saúde é um de seus principais objetivos. A liga deve pensar em maneiras de atuar nos vários níveis de prevenção e cura. Não devemos nos manter em redomas pensando estar alcançando nosso objetivo, devemos ter em mente nosso potencial de agentes de transformação social e nosso dever de exercício da cidadania.
A LA pode realizar diversos tipos de pesquisa na população que está em sua cobertura de atuação. O levantamento epidemiológico passa pela atividade de pesquisa.
Protocolos de estudos devem ser criados e preenchidos nas atividades de extensão, seja em ambulatórios, na comunidade ou em outros locais de acordo com a área de atuação do grupo acadêmico. As atividades de pesquisa devem proporcionar o desenvolvimento de senso crítico e raciocínio científico nos estudantes.
As atividades de ensino visam à capacitação dos estudantes para a atuação na comunidade e também contribuem para o desenvolvimento das pesquisas desenvolvidas e raciocínio clínico.
Não há limite de tempo para o funcionamento de uma LA. Na verdade a estrutura destas deve ser pensada de forma a se prolongar pelas gerações seguintes de estudantes que nela ingressarem.
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3 - ENTÃO, POR ONDE COMEÇAR?
Dois pontos fundamentais para responder esta pergunta são:
Reunir um grupo de estudantes.
Delimitar o tema.
Quanto ao primeiro ponto, o idealizador deve procurar outros estudantes para parceria na construção e participação na LA. Isto pode ser feito por meio de cartazes ou conversando com pessoas. O importante é não fechar sua idéia a um pequeno grupo de amigos e sim divulgá-la para que outras pessoas que estão realmente interessadas possam participar. O interesse inicial em participar é comum, porém à medida que o grupo inicia o trabalho algumas pessoas perdem o interesse, percebem impossibilidade de tempo, ou por qualquer outra razão se afastam, por isso é necessário contar com pessoas dispostas à construção desta realidade coletivamente. Várias ligas têm em sua composição discentes e docentes de várias áreas. Esta transdisciplinaridade é excelente para o bom desenvolvimento das atividades previstas. Quando pensamos nos objetivos e depois nas atividades da entidade devemos imaginar quais seriam os atores mais capacitados a executá-las. Estudantes de enfermagem, fisioterapia, psicologia, fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia, nutrição e farmácia podem participar das atividades e da liga.
O tema deve ser definido com base em duas questões: a demanda da população e a demanda dos estudantes. Uma demanda não pode sobrepujar a outra, caso contrário haverá sérios riscos de que a LA não chegue a funcionar, ou que tenha vida curta. Patologias com grande prevalência na população devem ter preferência. Temas muito específicos devem ser evitados por restringir o trabalho do grupo a poucas pessoas da população e por gerar uma tendência a super-especialização precoce do estudante. Os temas devem despertar o interesse dos estudantes, e como já fora dito, contemplar as demandas da população.
Tendo definido os dois pontos já citados deveremos pensar nos objetivos e atividades da entidade que futuramente deverão fazer parte de seu estatuto e que devem nortear o trabalho desta.
Em todo o processo de criação e no desenvolvimento das atividades de uma liga acadêmica, os estudantes devem estar cientes de que este não é o caminho mais curto para a especialização e sim uma oportunidade de aprender a buscar o conhecimento, desenvolver raciocínio clínico, científico e estimular sua interação com a comunidade. Estas habilidades poderão ser adaptadas a outras patologias e situações no futuro.
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4 - O ORIENTADOR
A figura do orientador é fundamental, mas nunca como principal na LA. Orientar é diferente de coordenar, desta forma o trabalho não deve ser conduzido de acordo com os interesses do orientador. Devemos ter como principal norteador do trabalho do grupo a transformação social, através dos trabalhos de produção do conhecimento e extensão, além de atividades de formação dos estudantes envolvidos. É importante ainda ressaltar que uma atitude ética deve ser tomada por todos os membros frente aos pacientes, atitude esta que passa pelo esclarecimento do que é a liga, da identificação de cada membro desta, além do consentimento (Termo de Consentimento Informado) dos pacientes de sua inclusão em estudos por ela produzidos.
Qual seria o perfil de um orientador? Certamente o orientador deve dispor de tempo para dedicar às atividades e ter interesse na orientação dos discentes. O professor-doutor, super-especialista nem sempre será o que melhor se encaixará nas atividades da LA.
O orientador deve aceitar o processo de construção coletiva da organização, jamais ditando os rumos a serem tomados. Os estudantes também não devem ficar passivos às decisões do orientador, depositando nele a responsabilidade do desenvolvimento das atividades do grupo, mas devem sempre procurar construir em conjunto estes rumos.
No caso de uma entidade transdisciplinar, cada área deverá ter um orientador, isto porque o orientador de cada área estará mais apto a orientar os estudantes de sua disciplina.
As ligas também podem optar por um modelo com vários orientadores da mesmaárea dependendo da necessidade apresentada. A experiência com mais de um, demonstra a vantagem de não sobrecarregar o orientador. No caso de vários, as relações entre os mesmos devem ser as melhores possíveis, a fim de que estas contribuam com o andamento dos trabalhos do grupo.
Professores podem ser convidados a realizar atividades como discussão de casos clínicos, palestras e etc. sem, no entanto, fazerem parte da entidade.
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5 - ESTRUTURA FÍSICA
Antes de pensarmos nos espaços que a LA fará uso, devemos definir suas atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Não limitar a atividade de extensão do grupo ao ambulatório e outras áreas hospitalares é de extrema importância. A liga deve estar junto à população participando de campanhas de revenção, visitas à comunidade procurando entender sua dinâmica e seus problemas, para assim, poder atuar de forma eficaz. Estas poderiam ainda participar dos conselhos municipais e estaduais de saúde expondo os conhecimentos adquiridos em seus trabalhos e ajudando na construção da nova realidade da saúde nas cidades e estados.
Os Centros/Diretórios Acadêmicos que possuírem sede com sala para reuniões podem cedê-la para reuniões das ligas. Aos Hospitais Universitários (HU), em geral cabe ceder o espaço para a realização de atividades assistenciais. A direção destes hospitais deve estar ciente da importância das ligas para estudantes e comunidade.
Não poderemos aqui definir e sequer citar todos os espaços a serem utilizados pelas organizações, isto dependerá fundamentalmente da imaginação e do plano de atividades proposto por seus membros.
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6 – ENSINO
Vários são os problemas do produto da escola médica (médico formado) ao longo do processo de formação, devido às características da maior parte das escolas médicas: restrição do objeto da prática médica (centrado no indivíduo biológico), pouca inserção em espaços de formação adequados (atualmente muito voltados para os espaços intra-muros), pouca oportunidade de produção de conhecimento ou outras atividades. Esses são apenas alguns dos problemas. No eixo curricular hegemônico não há prioridade sobre os principais problemas de saúde dos indivíduos e da sua macrovisualização coletiva, além de gerar profissionais de saúde inadequados para o sistema de saúde e o mercado de trabalho como um todo, com formação não terminal.
Assim, não é difícil perceber a inadequação de grande parte das atividades das escolas (inclusive as ligas). Por outro lado, é no estabelecimento de novas práticas transformadoras, com a devida orientação social e geração de novos horizontes para a formação do profissional, que aprendemos a valorizar o método científico conforme as demandas da prática médica, que está alicerçada, em última análise, nas necessidades sociais em saúde. Outro aspecto importante é não perder de vista o espaço de inserção da escola, já que a mesma tem vocações de acordo com missões específicas. Assim, caso uma instituição tenha um forte vínculo microrregional (na comunidade, no sistema de saúde) este pode ser tomado como objetivo maior. Às vezes, existe um contexto maior (questões relacionadas ao país), porém em menor proporção. Essas características são importantes para orientar objetivos e metas a serem seguidos pela escola, uma vez que a mesma se encontra fortemente influenciada por demandas contemporâneas. Estaremos, assim, criando elos sociais de fundamental importância. As ligas acadêmicas se relacionam com isso porque podem contribuir com um "saber fazer" diferenciado.
Conforme já fora mencionado neste texto, as atividades de ensino visam a capacitação dos estudantes para a atuação na comunidade e também no desenvolvimento de novos conhecimentos, através da pesquisa científica. Diversas podem ser estas atividades e as formas como serão executadas. Podemos citar entre estas atividades: aulas, palestras, cursos, discussões de artigos, discussões de casos clínicos, simpósios e etc. É importante que os membros não realizem atividades de ensino voltadas para uma única patologia.
O plano de ensino deve ser amplo, visando integrar o tema da liga a outras patologias, ao Sistema Único de Saúde e formas de realizar extensão em comunidade, respeitando seus costumes e obtendo uma boa resposta da mesma. A bioestatística, epidemiologia e outras áreas relacionadas à pesquisa também devem fazer parte das atividades de ensino.
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7 - A PESQUISA CIENTÍFICA
De forma geral e sucinta, o surgimento das pesquisas segue uma linha lógica na qual todos os membros da LA devem estar inseridos. O surgimento da dúvida, ou seja, algum aspecto que ainda não foi suficientemente esclarecido na literatura, ou que gere dúvidas nos pesquisadores, é o ponto inicial da pesquisa. A partir desta surge a grande idéia e então a hipótese para novo paradigma solucionador da dúvida. Para confirmar ou refutar a hipótese proposta os pesquisadores delineiam o estudo, através do método a ser utilizado.
Iniciamos então a revisão da literatura sobre o tema da pesquisa e a redação de um projeto de pesquisa comentando brevemente a relevância do tema, o objetivo, material e método, a forma de apresentação dos resultados, a ficha protocolo do estudo (onde serão colhidos os dados), a equipe de trabalho, o orçamento e o plano de atividades do grupo. A partir de então, inicia-se a coleta de dados, e em seguida a análise dos mesmos e redação de um artigo científico, apresentando o trabalho desenvolvido, os resultados, conclusões e comparação dos dados com o restante da literatura.
A liga não deve se deter ao levantamento epidemiológico, estas podem realizar desde pesquisas básicas a pesquisas aplicadas. Reuniões de discussão de artigos científicos relacionados às pesquisas em desenvolvimento são atividades importantes na área de pesquisa da entidade. Nestas reuniões também podem ser feitas avaliações das pesquisas, assim os membros podem repensar o trabalho nas pesquisas de forma a torná-lo mais facilitado e eficaz.
É de fundamental importância a apresentação dos trabalhos gerados pela liga em congressos e publicações científicas. Lembramos que o ECEM - Encontro Científico dos Estudantes de Medicina, e os EREM - Encontros Regionais dos Estudantes de Medicina, têm esta finalidade. Nos últimos anos mais e mais estudantes têm reconhecido nos espaços da DENEM uma boa oportunidade de exposição de seus trabalhos. Nestes espaços estudantes terão a oportunidade de trocar experiências com outros estudantes que desenvolvam trabalhos semelhantes, ou que façam parte de outras ligas acadêmicas.
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8 - EXTENSÃO - A LIGA ALÉM do HOSPITAL
Nesta atual conjuntura político-ideológica em que nos encontramos, a busca por produtos palpáveis está se tornando cada vez mais evidente. Quando se teve o início da Extensão Universitária na Europa, no século passado, tinha-se o objetivo de disseminar os conhecimentos técnicos numa tentativa de servir ao povo, onde se percebe uma visão dominadora, pois a não compreensão de todos os sentimentos e condições de vida da população, fazia com que os intelectuais empurrassem, à baixo, todos os seus conhecimentos, perpetuando a relação de dominação através do saber.
As Ligas Acadêmicas surgiram montadas num tripé do aprender, produzir e atender. Este tripé, além de mostrar uma idéia assistencialista em relação ao atender, reproduz uma lógica do mercado neoliberal onde se pode entender o produzir como um discurso voltado para a competitividade, onde o mercado, a empresa, o lucro e o faturamento são preocupações marcantes desta visão. Talvez fosse necessário pararmos um momento e refletirmos para que estamos sendo formados. Será que as escolas médicas estão formando médicos para atender as necessidades da população ou será que estamos sendo formados para privilegiar as classes dominantes, onde o curso médico não nos deixa parar para pensar nas necessidades sociais e sim nos coloca, desde o início, na tarefa de termos que ser os melhores, o mais especializado possível, e não questionar nada, apenas aprender.
É neste contexto que as ligas possibilitam uma prática mais ampla do exercício da cidadania, onde no dia-a-dia temos que reconhecer o outro como cidadão e agente transformador social, principal norteador do trabalho do grupo. É nesse trabalho que há possibilidade de refletirmos a respeito de um olhar voltado para as necessidades sociais e entender o paciente como um ser não compartimentalizado, repleto de signos, significados, sentimentos, cultura e saberes que não devem ser suprimidos. Lembro-me de uma situação em um ambulatório onde o médico ao ver a ficha de retorno de um paciente retrucou, "aí vem o paciente chato". Logo após este episódio um grupo de alunos foi formado para fazer visitas domiciliares para verificar quais eram os fatores que influíam no processo saúdedoença dos pacientes ditos "chatos", já que numa visão flexineriana (centrada no indivíduo biológico) as condutas estavam corretas. Constataram que todos os "chatos" tinham mais que chiliques, muitos tinham fatores econômicos que influíam no processo, outros fatores emocionais. Para outros, era a falta de políticas públicas no seu bairro ou nas proximidades, fazendo com que estes procurassem um hospital de referência e não um posto de saúde, onde seria o mais indicado.
Portanto, as ligas constituem-se em um espaço riquíssimo para esta reflexão devidoà diversidade de atividades promovidas, onde nas palestras, ambulatórios, campanhas, etc., sempre há oportunidade de fazer com que o outro se compreenda cidadão, problematizando a questão do ensino médico. Por que não temos usuários discutindo a educação médica em nossas Universidades? Por que o paciente vai a um hospital de referência se seu caso poderia ser acompanhado em um posto de saúde? Por que passa um esgoto a céu aberto em sua porta? E muitas outras situações que poderiam ser levantadas se soubéssemos para quem estamos sendo formados. Quando citei no início deste texto que a busca de produtos palpáveis está cada vez mais evidente, o que quis colocar é que as concepções de extensão como via de alguma coisa, ou mão dupla ou transmissão de algo, e muitas outras que vemos por aí, estão aquém do que um trabalho de extensão pode produzir. Numa visão de Marx e colocada muito bem por José Francisco de Melo Neto em seu Livro Extensão Universitária - uma análise crítica, diz que o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, onde esse coloca em movimento todas as suas forças naturais, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua vida. Atuando por meio desse movimento sobre a natureza externa a ele, ao modificá-la, ele modifica a si mesmo. Neste enfoque, onde a extensão é vista como trabalho que modifica as pessoas e gera um produto palpável que pode ser o saber, é que temos que começar a considerá-la. Em qualquer lugar que estivermos temos sempre que olhar para o indivíduo ao lado como sujeito de um processo transformador e darmos autonomia a ele, levando em consideração todo o seu ser.
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9 – FINANCIAMENTO
É fundamental que tenhamos uma base orçamentária da LA, ou seja, antes de saber quanto vamos precisar arrecadar temos que saber quanto vamos gastar. Este orçamento descriminado dos gastos é importante também na ocasião da apresentação do projeto da liga a possíveis apoiadores e patrocinadores.
Uma forma de arrecadação bastante usada por várias entidades é a promoção de cursos, simpósios, congressos etc, abertos para aos estudantes.
Bolsas de iniciação científica também podem ser conseguidas através dos orientadores que para isto devem ser doutores ou mestres. Os membros da liga podem imaginar possíveis parceiros financeiros em seu projeto, exemplos são: universidades, HUs, CRM, secretaria de saúde municipal e estadual etc. É fundamental que o financiador não interfira no trabalho do grupo.
O Centro/Diretório Acadêmico pode agir em parceria com as ligas da escola cedendo seu CNPJ (registro legal) para que estas possam receber financiamento de patrocinadores e apoiadores. A maioria dos patrocinadores exige que a entidade patrocinada seja legalmente reconhecida para que possa então fazer dedução do imposto de renda e comprovar que não está patrocinando entidade fantasma. Estando associada, ou de alguma forma vinculada ao CA/DA, a LA poderá fazer uso de seu CNPJ e desta forma poderá receber incentivos financeiros de empresas.
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10 - INSTITUCIONALIZAÇÃO DAS LIGAS
Institucionalizar uma LA passa necessariamente pela declaração de sua criação, regulamentação de suas atividades, participantes e outros aspectos que estarão contidos em seu estatuto.
Através de seu estatuto a liga torna-se uma entidade reconhecida e registrada. O estatuto contém as regras de funcionamento, é um regimento, uma constituição da liga. A função deste, como já dito, é regulamentar a liga. Este é dividido em capítulos, que contém artigos, que por sua vez podem conter incisos.
O estatuto deve fazer referência a alguns aspectos sobre a liga criada: O primeiro capítulo (sede, denominações, duração e fins) geralmente traz artigos referentes à fundação da liga (ano); o tipo de organização que é a entidade; a autonomia da liga; sua filiação a outras entidades (Centro/Diretório Acadêmico, Universidade e etc.); os objetivos; as atividades da entidade e os locais de onde esta atuará.
Os artigos do segundo capítulo (membros e funcionamento) tratam de quem pode ser membro da liga, o processo de seleção de novos membros, o tempo de participação mínimo e máximo (algumas ligas apenas) de membros da liga e as atividades dos membros participantes.
O terceiro capítulo (órgãos e finalidades) dispõe sobre a gestão da liga (geralmente assembléia geral, conselho consultivo e diretoria). Este capítulo determina por quem é formado, e as atividades de cada um dos órgãos gestores da liga.
Outros capítulos do estatuto de uma liga podem dispor sobre as obrigações do participante da liga (faltas, atividades compulsórias, remuneração), formas de punição de um membro que não cumprir suas atividades.
Um último capítulo (disposições gerais e transitórias) determina que casos omissos serão analisados por uma das instâncias gestoras da liga, além de outras disposições que não estiverem relacionadas aos outros capítulos. Este modelo de estatuto é o predominantemente adotado e pode ser adaptado para a criação do estatuto de uma nova liga. Depois de criado, o estatuto deve ser registrado nas instituições às quais a liga é filiada. A partir deste registro a liga passa a ser reconhecida como entidade pelos órgãos nos quais está registrada.
No caso de mudanças no estatuto, estas devem ser aprovadas em assembléia geral da LA. Uma cópia do estatuto já modificado e uma ata da reunião (com listagem dos presentes) deve ser encaminhada para a entidade em que a liga está filiada. Na maioria das vezes o Centro/Diretório Acadêmico (CA/DA) é a entidade responsável pela filiação das ligas e assim faz um arquivo dos estatutos e outras informações sobre estas. A parceria Liga-CA/DA quando efetiva é de grande importância para o crescimento de ambas as entidades. Nesta parceria o CA/DA deve respeitar a autonomia da liga. Aquele deve apenas
corroborar com esta, visando o crescimento das atividades extracurriculares de formação médica. A gestão da LA deve ser pensada de maneira a planificar as responsabilidades e poderes. Uma diretoria centrada no presidente tende a acumular responsabilidades e poder de decisão em um único membro. A responsabilidade pelas atividades a serem desenvolvidas e o poder de decisão sobre os rumos da entidade devem estar distribuídos de forma o mais homogênea possível entre todos os membros da liga, ou da direção desta.
Por isso, propomos um sistema de diretoria com coordenadores de área e dois coordenadores gerais, ou seja, coordenadores gerais, coordenador (es) de finanças, coordenador(es) científico, coordenador(es) de secretaria, coordenador(es) de extensão, coordenador(es) de ensino, coordenador(es) de arquivo etc.
Uma experiência nova vem sendo construída em algumas universidades: o Conselho de Ligas. Este conselho tem caráter consultor e/ou deliberativo. É formado por discentes de todas as ligas da escola médica e um representante do Centro/Diretório Acadêmico. Este conselho surgiu da necessidade de troca de experiências e auxilio mútuo entre as ligas. Esta idéia revelou-se muito proveitosa, permitindo um grande avanço das ligas nas escolas onde já funciona.
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11 - A DENEM, OS CENTROS/DIRETÓRIOS ACADÊMICOS E AS LIGAS.
Dentro da DENEM tem crescido, nos últimos anos, o interesse pelas ligas. Nas escolas, EREMs e ECEM o assunto tem sido abordado com freqüência pela demanda que surge dos estudantes e Centros/Diretórios Acadêmicos (CA/DA's) em se capacitar e discutir a respeito. Com isso temos criado, nos espaços já citados, a oportunidade de discussão entre membros de ligas e capacitação de estudantes que desejem criar uma.
Visto também que há hoje um grande crescimento destas organizações em todo o Brasil e que é pequena a comunicação entre estas, surgiu a demanda de fazer um Cadastro Nacional de Ligas e Projetos de Extensão. Neste cadastro serão registradas on-line as ligas e projetos de extensão desenvolvidos nas escolas médicas de todo o país. Este cadastro poderá ser consultado por qualquer interessado no site que, muito em breve, estará disponível. As informações contidas neste cadastro permitirão que todos nós conheçamos a realidade das ligas e projetos de extensão nas escolas médicas. Mais importante, ele servirá também como fonte de contatos entre estas entidades e também destas com estudantes interessados na criação de novas organizações. Desta forma este projeto audacioso contribuirá de forma marcante na construção e desenvolvimento das ligas e projetos de extensão.
A Assessoria Científica da DENEM - AssCien - mantém ainda uma lista de e-mails onde participam estudantes de todo o país. Informações sobre pesquisas científicas, a produção do conhecimento nas escolas médicas e também sobre ligas acadêmicas podem ser obtidas nesta lista.
No ano de 2001 foi criado o Prêmio Saúde Brasil para trabalhos com responsabilidade social. Este prêmio, idealizado pela DENEM e produzido pela Fundação Aguilla, contemplou grupos, ligas acadêmicas e projetos de extensão que desenvolvem trabalhos socialmente relevantes. A idéia deste prêmio surgiu durante o planejamento da AssCien no COBREM de Salvador, por uma demanda dos estudantes ali presentes. Devido ao sucesso desta primeira edição o prêmio deve se repetir anualmente.
Os CA/DAs devem estar capacitados a orientar a criação e desenvolvimento das Ligas na escola médica. O CA/DA e a LA devem ter em mente que esta é uma associação onde os benefícios devem ser mútuos. O CA/DA lutando para a resolução de problemas das ligas, ajudando-as com financiamento, fóruns, simpósios, espaço físico e outros problemas que possam surgir. A LA, com retorno que provê aos estudantes (assim também ao CA/DA)é o exemplo da oportunidade de uma nova experiência transformadora da formação médica.
O surgimento e bom funcionamento de atividades transformadoras da formação médica (como as ligas podem ser) apontam opções na formação de médicos mais capacitados e comprometidos com o real objetivo da prática médica, a saúde e qualidade de vida da população.
Fonte: Assessoria Científica da DENEM (2001): Rodrigo P. de Azevedo (UFMA) e Patrícia S. Dini (UNIFESP-EPM).
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